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terça-feira, 8 de maio de 2012

O homem que não sabia ler




Um menino andando na rua encontrou um homem sentado na calçada.
O menino ia da escola para casa. O homem descansava depois de um dia duro de trabalho.
- Moço, que horas são? – perguntou o menino.
O homem disse que não tinha relógio e, para falar a verdade, nem sabia ver as horas.
O menino não entendeu.
O homem explicou:
- Não sei para que servem aquele ponteirão e aquele ponteirinho. Eles giram, giram e giram, mas não consigo entender direito como coisa funciona.
- Mas é tão fácil! – espantou-se o menino. O ponteirinho marca as horas e o ponteirão marca os minutos. Por exemplo: se o ponteirinho está no dez e o ponteirão está no cinco, isso quer dizer que são 10 horas e 25 minutos.
O sujeito balançou os ombros.
- Mas qual é o dez e qual é o cinco? Não sei ler os números.
O homem tinha idade para ser pai do menino.
- O senhor não conhece os números?
- Nem os números, nem as letras.
- O senhor não sabe ler?
- Nem ler, nem escrever.
O menino espiou aquela passoa sentada na calçada.
- às vezes na rua, - disse o homem – olhando as letras dos cartazes, eu pergunto: o que será que elas dizem? Outras vezes, na banca, fico admirando as revistas, os jornais… queria tanto poder ler as notícias, entender o que se passa no mundo, ler os letreiros dos ônibus e saber onde eles vão…
O homem suspirou.
- Queria tanto ir para baixo de uma árvore, abrir um livro e ler uma história…
Um automóvel entrou na curva soltando uma fumaça preta.
- Eu não sou daqui – continuou o sujeito. Minha cidade fica depois da serra, pegando a estrada, passando a outra serra e depois a outra, lá longe, perto do mar.
E seus olhos brilhavam tristes.
- Às vezes, fico me lembrando de casa, de minha mãe, meu pai, meus irmãos…
O menino procurou um lugar para sentar.
- Você sabe escrever? – quis saber o homem.
- Já sou quase da terceira série.
O outro sorriu:
- Tenho uma noiva lá na minha terra. Ela é uma princesa. A coisa mais linda do mundo. Um dia a gente vai se casar…
Examinou o menino:
- Escreve uma carta pra mim?
Dizendo sim com a cabeça, o menino tirou um caderno e uma caneta esferográfica do fundo da mochila.
O homem foi falando. O vento soprava morno. O homem contou que a cidade era grande. Contou que estava sozinho. Contou que sentia medo. Contou que quase tinha juntado um dinheirinho, que estava morto de saudade e que no final do ano, se Deus ajudasse, pegava o ônibus e voltava para casa.
O menino escreveu tudo com letra caprichada, dobrou o papel e entregou ao homem.
A Lua havia surgido sem ninguém perceber.
O menino precisava ir embora.
O homem apertou a mão do menino.

Ricardo Azevedo. In: Nova Escola, ano 12, n. 100. São Paulo, Abril, março/97.

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